quarta-feira, 19 de junho de 2013

Antes da Meia-Noite

Sequência de Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Pôr-do-Sol (2004) que se passa quase 20 anos depois do dia em que Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se conheceram num trem na Europa.

9 anos após o final ambíguo de Antes do Pôr-do-Sol (onde não sabíamos se Jesse iria pegar o avião ou ficar com Celine), o filme mostra os dois como um casal passando o verão na Grécia com suas filhas gêmeas. Assim como os anteriores, o filme consiste basicamente de diálogos inteligentes e criativos entre o casal, que revelam os altos e baixos do relacionamento.

É um caso diferente de filme naturalista pois ele mostra pessoas bonitas,  inteligentes, bem de vida, aparentemente felizes, com uma amizade admirável, em locações belíssimas no exterior - algo raro nesse tipo de filme (que costuma retratar pessoas e ambientes mais negativos).


Disse aparentemente felizes pois felicidade nunca sai ilesa no naturalismo; o que eu gosto menos a respeito do filme é a filosofia pessimista por trás de quase todas as conversas. Os personagens parecem considerar profundo tudo aquilo que sugere que nosso comportamento é pré-programado ou aquilo que expressa certa desilusão com a vida: como os homens são guiados por instintos sexuais, a história do amigo que ficou com leucemia e sentiu "alívio" pois a certeza da morte livrava ele de todas as suas expectativas e responsabilidades, o livro que Jesse quer escrever sobre os pontos de vista de pessoas com distúrbios mentais, a conclusão de Celine de que "nós não sabemos de nada, o importante é estar olhando", o brinde feito ao fato de que "a vida é uma passagem", etc,  etc, etc.

E tudo isso é dito de maneira alegre e descontraída - ou seja, a vida é uma desgraça, felicidade é uma ilusão, relacionamentos são insatisfatórios, portanto o jeito é aceitar e lidar com tudo de maneira positiva.

Concordando ou não com as ideias dos personagens, o filme tem vários méritos como a qualidade dos diálogos, que são sempre originais e estimulantes (principalmente pra quem gosta de conversas mais abstratas), e a composição espetacular dos personagens (Hawke e Delpy escreveram o roteiro junto com o diretor Richard Linklater, portanto é tudo extremamente convincente, ficando até difícil imaginar que eles não sejam apaixonados na vida real).

Before Midnight (EUA / 2013 / 109 min / Richard Linklater)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol, filmes do Woody Allen como Para Roma, com Amor, Vicky Cristina Barcelona, etc.

NOTA: 7.5

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Depois da Terra

Não fez o sucesso esperado nos EUA esse projeto de Will Smith, que além de estrelar o filme ao lado de seu filho Jaden, tem crédito como produtor e autor da história. Pra dirigir, Smith contratou M. Night Shyamalan (com quem ele queria trabalhar havia muito tempo), que após uma série de fracassos parecia estar finalmente num projeto comercial (praticamente tudo que Will faz vira blockbuster), mas ainda não foi dessa vez que ele se redimiu com o público (pelo visto é Shyamalan o problema).

O filme acaba parecendo mais um veículo pra uma mensagem de auto-ajuda (o monstro do filme caça sentindo o medo de suas presas, portanto pra sobreviver você tem que aprender que "medo é uma escolha"), que é bem intencionada porém soa um pouco superficial pra sustentar a história toda.

Alguns críticos dizem que o filme promove ideias da cientologia, mas os conceitos aqui não me parecem exclusivos de uma religião ou de outra. O filme fala de coragem, amadurecimento - temas válidos e comuns em muitos filmes do gênero. Smith sempre gostou de desenvolvimento pessoal, mensagens motivacionais (há vários vídeos no YouTube dele falando sobre isso), então a história me parece mais a expressão da ideologia dele do que qualquer outra coisa.


Mas o público não se encantou, e muitos viram o filme como um "projeto de vaidade" de Smith, querendo mostrar sua sabedoria de vida e lançar o filho como astro antes mesmo dele estar pronto. Os críticos disseram que o menino é péssimo ator, que não tem carisma... Pra mim o problema é mais de personagem do que de interpretação (ninguém reclamou dos dois quando contracenaram em À Procura da Felicidade). Aqui não há uma relação muito interessante entre pai e filho - o pai é severo e autoritário injustamente, pois o garoto é exemplar e faz de tudo para agradá-lo. Por outro lado, o filho é "prodígio" e preparado demais pra gente se preocupar se ele vai vencer ou não (seria mais interessante se ele fosse o oposto do pai, totalmente despreparado, e de repente se visse numa situação de ter que sobreviver num ambiente hostil).

Não ajudam também a direção de arte feia e os efeitos especiais, que acabam dando a impressão de uma produção não tão de primeira (ainda mais pra quem viu filmes recentes como Oblivion ou Além da Escuridão - Star Trek). Mas apesar dos problemas achei o filme honesto e bem intencionado, longe do desastre que os críticos estavam anunciando.

After Earth (EUA / 2013 / 100 min / M. Night Shyamalan)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Além da Escuridão - Star Trek, Oblivion, Jogos Vorazes, Avatar - embora esse esteja alguns níveis abaixo.

NOTA: 6.0

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Se Beber, Não Case! Parte III

Terceira e última parte da série Se Beber, Não Case (que podia muito bem se chamar A Ressaca) que agora gira em torno do personagem de Alan (Zach Galifianakis), que está com problemas psiquiátricos e concorda em ser internado numa clínica no Arizona desde que seus amigos (o "bando de lobos") os levem até lá.

O problema óbvio do filme é que ele foge da fórmula que foi responsável pelo sucesso do primeiro filme. Era um filme de uma piada só: as loucuras que as pessoas fazem quando estão bêbadas. Aqui não há nada disso (exceto por 1 cena após os créditos, que por sinal foi a maior risada da sessão, comprovando que a mudança de estratégia foi um erro). A história não é essencialmente engraçada; é apenas um filme de crime do tipo Onze Homens e Um Segredo, só que protagonizado por personagens atrapalhados. Mas sem as piadas envolvendo álcool, os roteiristas não conseguiram criar situações igualmente divertidas. E também não chega a ter uma boa história pra funcionar como filme sério (essa história não é do tipo que gera continuações plausíveis, mas já que resolveram fazer, talvez o mais natural fosse se eles passassem do álcool pra algum tipo de droga mais forte, que justificasse consequências ainda mais drásticas; Se Cheirar, Não Case ou algo do tipo).


Eu particularmente já não era de rir das piadas de bêbado, mas agora sem elas, mesmo quem gostou dos outros dois filmes irá ficar desapontado (esse só fez 1 terço da bilheteria do primeiro nos EUA, e tem nota 30 no Metacritic, versus 73 do original).

The Hangover Part III (EUA / 2013 / 100 min / Todd Phillips)

INDICAÇÃO: Apenas pra fãs da série que querem se despedir do "wolfpack".

NOTA: 4.5

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Faroeste Caboclo

Acho que é o primeiro filme que muita gente vê baseado numa canção (além desse só me lembro do Yellow Submarine), o que já torna o filme especial de alguma forma (não necessariamente bom), mas com um apelo "pop", ainda mais se tratando de uma música tão conhecida e que todo mundo sempre disse que daria um filme. Não sou fã de Legião Urbana, então não fui daqueles que já entraram no cinema querendo gostar, mas acabei sendo conquistado pelo filme, nem tanto por aquilo que vem da letra, mas pelo roteiro, elenco, fotografia - os méritos particulares da produção.

A história acompanha João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira), que perde os pais ainda criança em Salvador e parte para Brasília pra tentar uma vida melhor. Lá ele se apaixona por Maria Lúcia (Isis Valverde), mas seu envolvimento com as drogas e a rivalidade com um traficante local chamado Jeremias (Felipe Abib, que está perfeito como o vilão) acabam deixando seus sonhos cada vez mais distantes.


Um perigo que o espectador pode cair é o de achar que João de Santo Cristo é um injustiçado, que nasceu num ambiente hostil portanto não tinha escolha a não ser virar criminoso. Depois que vemos ele roubando, matando, traficando, mentindo, fica difícil manter toda a simpatia e vê-lo como vítima. A melhor forma de ver o filme é como uma tragédia - uma história sobre os erros que as pessoas cometem e o preço que elas têm que pagar. O que mantém a gente interessado é que o protagonista não é de todo mau - há um lado positivo nele que faz a gente se importar pelo seu destino - principalmente por causa do romance, que soa verdadeiro, envolve, até pelo fato deles virem de lugares tão opostos e ser uma espécie de amor proibido. A situação da mocinha ter que se entregar pro vilão pra proteger o amado é um conflito antigo que remete à ópera Tosca e dá um ar de tragédia clássica pra história, tornando tudo ainda mais dramático.

Pode não ser meu tipo favorito de história e de personagem, mas achei tudo muito bem feito, com qualidade de produção americana (há um estilo meio Tarantino, mas sem forçar ou parecer plágio). Um acerto do diretor René Sampaio, que veio da publicidade mas no primeiro filme já parece fluente na linguagem do cinema.

Faroeste Caboclo (BRA / 2013 / 105 min / René Sampaio)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Tropa de Elite 2, VIPs, etc.

NOTA: 7.5

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Além da Escuridão - Star Trek

Segundo filme da nova série Star Trek, que traz de volta J.J. Abrams na direção além de Chris Pine (Capitão Kirk) e Zachary Quinto (Spock) no elenco. O primeiro pra mim é um dos melhores filmes de ficção dos últimos anos e esse aqui não se afasta muito da fórmula, apostando de novo no que funcionou da primeira vez.

Os cartazes e o título Além da Escuridão davam a impressão de uma continuação mais sombria, mas no fim não há essa mudança de tom (o que eu acho bom - só sinto falta de novas ideias, variações, algo que desse um sabor diferente pra produção, pois quando o filme acaba a gente fica com a impressão de já ter visto algo parecido antes).

Ainda assim é um outro nível de entretenimento, feito por gente que sabe muito bem conduzir uma história e criar interesse pelos personagens. O centro emocional continua sendo a amizade entre Kirk e Spock - personalidades opostas mas que se complementam de alguma forma e criam uma dinâmica fascinante. Kirk é intuitivo, extrovertido, caloroso, Spock é completamente frio, lógico, diz que não tem sentimentos - mas o segredo é que Quinto o interpreta de uma forma que a gente nunca acredita completamente nisso. Nós não o vemos como um robô sem vida, mas como uma pessoa machucada, extremamente rígida consigo, que finge não sentir afeto, mas que no fundo é sensível e se importa profundamente pelo amigo (há um diálogo em que Spock admite que reprime seus sentimentos, e é o tipo de texto que não se encontra em filmes de ação comuns e adiciona toda uma dimensão pra história).


Os fãs deverão vibrar também com o vilão (feito pelo impressionante Benedict Cumberbatch) que é um personagem conhecido e que já apareceu antes na série de TV original e também em um dos longas.

Ou seja, os personagens são carismáticos, a história funciona, as cenas de ação são tensas... J.J. Abrams ainda não é um James Cameron ou Spielberg, mas da nova geração parece o mais competente pra comandar esse tipo de filme-evento (tanto que acabou sendo a escolha natural pra dirigir o próximo Star Wars).

Star Trek Into Darkness (EUA / 2013 / 132 min / J.J. Abrams)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Star Trek, 007 - Operação Skyfall, Prometheus, Homens de Preto 3.

NOTA: 8.0

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Velozes & Furiosos 6

É melhor que o último que se passava no Rio, principalmente porque a história aqui já começa mais envolvente: Letty (Michelle Rodriguez), ex-namorada de Toretto (Vin Diesel) que supostamente havia morrido, é descoberta viva e trabalhando para uma organização criminosa - justamente a que Diesel e sua turma terão que derrubar. A curiosidade do que aconteceu com ela já é o bastante pra fazer a gente embarcar na história. Outra melhora é que agora eles estão caçando os criminosos à serviço do governo - ou seja, dessa vez eles são de fato os mocinhos e não é como nos outros filmes onde era bandido contra bandido e você não tinha bons motivos pra torcer pra ninguém.

Mas o sucesso do filme se deve mesmo às sequências de ação, que estão cada vez mais exageradas e divertidas. A sequência final, que se passa num avião cargueiro prestes a decolar, ou é a cena mais forçada de todos os tempos, ou foi filmada num aeroporto de 50 km de comprimento, pois a ação rola solta por uns 15 minutos e nada da pista acabar (sem falar nos carros pendurados nas asas do avião e uma série de outras loucuras). Chega a ser admirável não só pela ousadia, mas também pelo fato da cena funcionar e deixar a gente preocupado mesmo assim.


O filme só não é um entretenimento melhor porque, assim como os outros da série, ele é extremamente materialista e se passa num mundo onde os grandes valores da vida são músculos rasgados, carros barulhentos, etc. Toretto é um herói apenas do mundo físico - se você valoriza inteligência, cultura, bons modos, senso de humor - qualquer coisa que não descreva um troglodita - você não vai se sentir extremamente representado na tela.

Fast & Furious 6 (EUA / 2013 / 130 min / Justin Lin)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou do último, Os Mercenários, Transporter, Triplo X, etc.

NOTA: 7.0

sábado, 25 de maio de 2013

Reino Escondido

Animação 3D da Blue Sky Studios (a mesma companhia de A Era do Gelo e Rio) sobre uma garota que vai visitar seu pai numa casa próxima a uma floresta (o pai é um cientista excêntrico que acredita que há pequenas fadas e guerreiros vivendo na floresta) quando acaba sendo magicamente encolhida e descobre que o mundo que seu pai estudava era real. Na floresta, ela se junta aos "homens-folha" numa batalha contra criaturas que ameaçam destruir toda a floresta (é mais uma daquelas tramas ecológicas que vêm na tendência de Avatar).

Se fosse pra resumir o filme em 1 frase eu diria: visual lindo, história medíocre. A animação é sofisticada, as paisagens são belíssimas (a produção tem uma atitude um pouco mais adulta que o normal do gênero), mas não há qualquer envolvimento com os personagens, a história é desinteressante, o casal não tem química, o vilão não impressiona... De "épico" só o título mesmo. O problema já está no ponto de partida: a menina não tem qualquer interesse nos estudos do pai, não liga pra fadas, não luta por causas ecológicas... A ideia de uma adolescente com esse perfil ir parar no "reino escondido" já não é nada empolgante (compare com Dorothy, que já sonhava com um mundo "acima do arco-íris" antes de ir pra Oz, ou com Jurassic Park, onde os protagonistas eram paleontólogos).


Chegando lá, ela embarca na aventura mas não por um interesse pessoal forte, mas forçada pelas circunstâncias; movida por um senso de dever. Nem o romance - que poderia dar um sentido pra história - acaba rolando direito. Sem falar que a missão é chata e cheia daquelas regras místicas nonsense do tipo "pra salvar o mundo, o botão da flor deve ser exposto à lua exatamente às X horas do dia tal", etc. O filme é bem intencionado, mas vai ser difícil manter as crianças sentadas depois da primeira meia-hora.

Epic (EUA / 2013 / 102 min / Chris Wedge)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de A Origem dos Guardiões, A Era do Gelo 4, Rio, 9, Horton e o Mundo dos Quem!.

NOTA: 5.5

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Elena

Documentário brasileiro onde a diretora Petra Costa expõe suas lembranças de sua irmã mais velha Elena Andrade, que sonhava em ser atriz de cinema e se suicidou em Nova York nos anos 90 quando viu que seu sonho não se realizaria. O filme é todo narrado pela diretora e contém vários videos caseiros gravados nos anos 80 e 90, o que permite um verdadeiro mergulho da platéia nas memórias da família.

Há algo de extremamente poderoso e apelativo no conceito do documentário; o fato dela ter se matado, o fato de existirem tantos videos caseiros disponíveis, o fato de Elena ser uma menina linda, ambiciosa, aparentemente talentosa, com uma paixão absoluta pela arte - tudo isso torna o documentário fascinante, ainda mais se você pensar na ideia de que ele acaba tornando realidade o sonho de Elena, transformando-a finalmente numa estrela de cinema, agora que é tarde demais.


O que eu não gosto: há no filme uma atitude que eu costumo chamar de "culto à dor" - um certo fascínio pelo trágico, pelo melancólico (há um trecho interessante do filme que mostra uma tática que Petra usava quando criança pra chamar atenção: colocar um Band-Aid na testa pra fingir que estava machucada - é isso que muita gente continua fazendo depois de adulto; buscar admiração pelo fato de sofrer, de ser triste). A tragédia da menina não é mostrada como um erro terrível, mas como algo poético e belo de certa forma - como se fosse o destino natural de alguém com sonhos tão grandes. É o tipo de coisa que pode servir como um falso conforto para aqueles que abandonaram suas ambições, que ao verem uma história como essa poderão pensar: "viu só, é nisso que dá sonhar alto; eu estava certo em optar por uma vida mais modesta".

De qualquer forma, há positivos o bastante pra tornar o filme digno de ser visto. A admiração de Petra pela irmã é algo que comove, e sua narração é cheia de passagens brilhantes e de uma sensibilidade notável.

Elena (BRA / 2012 / 82 min / Petra Costa)

NOTA: 7.5

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Uma Ladra Sem Limites

Comédia do diretor de Quero Matar Meu Chefe sobre um executivo calmo e correto chamado Sandy (Jason Bateman) que tem sua identidade roubada (e cartões de crédito clonados) por uma mulher em Miami  (Melissa McCarthy) e precisa viajar através do país pra trazê-la até Denver e provar sua inocência (a trama não é das mais convincentes e a gente fica se perguntando se isso tudo seria necessário, ou se um cara como Sandy faria algo tão drástico).

A intenção é a de ser uma dessas comédias onde um personagem excêntrico e divertido vem pra quebrar a normalidade da vida do protagonista, que no começo resiste mas acaba vivendo uma aventura inesquecível e no fim forma-se uma amizade.

O sucesso desse tipo de filme depende em grande parte da "gostabilidade" desse personagem cômico e da química entre ele e o protagonista. O problema aqui é que o filme parece não decidir se a Diana (McCarthy) é pra ser de fato gostável - um personagem que quebra certas normas mas no fundo é bom e inocente (como um personagem da Whoopi Goldberg por exemplo) - ou se é uma espécie de comédia de humor negro onde a protagonista é completamente imoral e a graça está na inversão exagerada de valores. É uma combinação insatisfatória, pois se você está tentando gostar e se importar por Diana (e acho que o filme pede isso), ela te decepciona quando age como criminosa ou faz coisas grotescas (como a cena de sexo no motel). Há uma diferença importante entre quebrar normas leves e agir de má fé.


Há uma cena que achei engraçada no trailer onde os dois estão no carro e Diana começa a fazer imitações das músicas no rádio, irritando Sandy. No trailer parecia divertido, pois a gente assume que os dois são aqueles personagens de personalidades opostas mas que no fundo se complementam e se gostam. Mas vendo a cena no contexto do filme, não há a menor graça, pois a mulher é de fato uma criminosa e ainda não há um laço entre eles - ela está apenas sendo inconveniente (em determinado momento do filme ela se sensibiliza e passa a se importar por Sandy, já o contrário demora demais pra acontecer - precisaria haver algum motivo que justificasse os crimes dela e a tornasse inocente aos olhos de Sandy - e do público).

A impressão que dá é que a história foi inspirada em filmes mais ingênuos com esse mesmo tipo de situação, mas depois foram acrescentados esses elementos grosseiros pra coisa ficar "atual" e seguir a tendência de Se Beber, Não Case, Operação Madrinha de Casamento, etc. É um tipo de comédia que eu gosto e Melissa McCarthy é perfeita pro papel, mas o caráter duvidoso de Diana e a amizade mal resolvida entre os dois acabam tirando parte do prazer.

Identity Thief (EUA / 2013 / 111 min / Seth Gordon)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Ted, Cada Um Tem a Gêmea que Merece, Quero Matar Meu Chefe, Missão Madrinha de Casamento, etc.

NOTA: 6.5

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A Caça

Drama do dinamarquês Thomas Vinterberg (Festa de Família) sobre um professor de uma escola infantil que tem sua vida virada de cabeça pra baixo quando uma aluna de imaginação fértil diz ter visto suas partes íntimas, fazendo todo mundo imaginar um caso de abuso sexual.

É quase um filme de terror, desses que começam com um personagem honesto, feliz, querido por todos, e de repente surge algo pra destruir sua vida - só que em vez de um assassino ou um monstro, o vilão aqui é algo menos concreto, que pode visto como "a natureza má do ser humano" (se você concorda com essa visão, o filme será um prato cheio).

Num filme melhor intencionado, essa história seria sobre o protagonista enfrentando os obstáculos da melhor maneira possível e tentando provar sua inocência (e caso fosse derrotado no final, seu espírito permaneceria inabalável). Mas como a intenção aqui é provar que o homem tem má índole e que a convivência humana apresenta problemas insolúveis, o protagonista tem que sofrer e ser incapaz de se defender, o que acaba tornando ele e a história um pouco menos convincentes (aliás, a maioria dos filmes que tentam mostrar o homem como vítima tem que criar um contexto muito especial e fazer as pessoas agirem de maneira falsa pra poder dar certo).


A menina diz pelo menos 2 vezes que o cara não abusou dela mas ninguém dá ouvidos, dando a impressão que elas querem que ele seja culpado por algum motivo. E o protagonista nem menciona o desentendimento que houve entre ele e a garota no começo da história, o que poderia explicar em partes a atitude dela (voltando à comparação com os filmes de terror, é como aquela raiva que a gente sente quando um personagem não age de forma lógica - sobe as escadas em vez de fugir pela porta, se colocando ainda mais em perigo).

Há algo na Dinamarca que faz as pessoas adorarem histórias sobre pessoas generosas que são abusadas e destruídas pela comunidade (estou lembrando de Dogville e Dançando no Escuro), mas de qualquer forma isso não anula as qualidades do filme, que é intenso, inteligente, extremamente bem contado e interpretado. Tenho certas questões com a mensagem, mas é uma experiência forte que levanta questões éticas interessantes.

Jagten / The Hunt (Dinamarca / 2012 / 115 min / Thomas Vinterberg)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de A Separação, Dançando no Escuro.

NOTA: 8.0